Assine o Feed desse BlogQuando os ingleses abandonaram seu projeto de domínio no Paraná, um agressivo negociante brasileiro entrou na jogada: Alberto Dalcanale Leia mais
No início, ele era apenas um menino muito esperto. Apaixonado por uma francesinha de 14 anos, filha de um especialista em vinho, passou a conversa na mãe, vendeu um terreno da família e foi atrás dela, na Europa*.
Casando-se na França, Alberto Dalcanale iniciava uma carreira de colonizador que o levaria a substituir os ingleses quando eles, no pós-guerra, desistiram de continuar seu domínio sobre o interior do Paraná.
A partir de então, quem dominaria o Brasil seriam os EUA. Mas quem puxou a colonização do interior do Paraná foram os gaúchos, dos quais o primeiro a ter sucesso foi Alberto Dalcanale através de uma grande habilidade para negociar e se reunir a novos sócios, como narra seu filho Luiz Alberto:
- Foi nesse regime societário, liderança mais parceria, que os negócios deram certo. Começando por Ponte Serrada, iniciativa da firma De Carli e Companhia. de Caxias do Sul (RS), e que tinha na liderança local o sr. Bortolazzi, veio a seguir Vila Oeste, hoje São Miguel do Oeste, um trabalho inicial da firma Barth, Benetti e Cia, depois Barth, Anoni e Cia, que tinha como líder Willy Barth e José Anoni, de Carazinho no Rio Grande do Sul.
Muitos sócios e empresas
Mais tarde, segundo o depoimento de Luiz Alberto, essa empresa passou a se chamar Colonização e Madeiras Oeste Ltda, e teve como seus diretores José Festugato II, também de Carazinho:
- Esta empresa associou-se a um grupo de Erechim no Rio Grande do Sul, liderado por José Sponchiado, Hélio Wasum e Angelino Rosa. Fundaram a Industrial e Colonizadora Erechim Ltda, que iniciou a colonização de Salgado Filho e Barracão, no Estado do Paraná.
- Desejando aumentar sua atividade na região de São Miguel do Oeste, Alberto Dalcanale, juntamente com seu irmão Luiz Dalcanale e Alfredo Ruaro, de Farroupilha (RS), constituíram a empresa Pinho e Terras Ltda, colocando como seu gerente local Olímpio Dal Magro.
- Esta firma foi responsável pela colonização de inúmeras áreas no Oeste de Santa Catarina, e Anchieta é uma delas. Além disso, foi quem conduziu para o Oeste Catarinense as colonizadoras de São José do Cedro e Romelândia, de Romeo Granzzoto.
Em 1946, Alberto Dalcanale passou a residir em Curitiba. Quase na mesma época, iniciava-se a colonização das áreas em que se situam, hoje, os municípios de Céu Azul (nome escolhido pela filha Ivete), Matelândia, Medianeira, São Miguel do Iguaçu, Santa Terezinha e Palotina.
Mais tarde, na década de 50, inicia-se a urbanização de áreas na cidade de Foz do Iguaçu e Cascavel, promovendo grandes loteamentos.
Depois de um fracasso
A família Matte, detentora de boa parte das terras da região, criou a Companhia Florestal do Paraná, em Foz do Iguaçu, para explorar e colonizar a região. Havia dificuldades imensas e o projeto fracassou.
A família chegou a trazer migrantes gaúchos, mas quase ninguém ficou por conta da total falta de estrutura. Assim, os Matte hipotecaram grande parte de seus bens a Alberto Giambeli & Cia., que por sua vez transferiu seus direitos a Ramon Lopez. O restante da hipoteca ficou para a Caixa Econômica Federal, Banco da Província do Rio Grande do Sul e a União Popular de Venâncio Ayres.
Sabendo disso, Alberto Dalcanale levantou a hipoteca, negociou seu pagamento e ficou com as terras. A partir daí, organizou a Colonizadora Gaúcha e a Pinho e Terras Ltda. Assim começaram a surgir as cidades da chamada Rota Oeste, entre Cascavel e Foz do Iguaçu.
Encontro com Barth
Alberto Dalcanale, portanto, desenvolveu um leque de atividades empresariais que fizeram dele um dos nomes mais importantes e destacados da colonização do Oeste de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná.
Essa atividade o levou a cruzar seu caminho com Willy Barth, que seria um de seus principais parceiros e sucessores.
Barth trabalhava com Carlos Sbaraini na venda de madeira, que era embalsada e exportada através do rio Uruguai. Willy convidou o amigo Alfredo Ruaro, procedente da cidade gaúcha de São Marcos e comerciante em Farroupilha, para ser seu corretor de terras, apresentando-o aos também colonizadores Alberto e Luiz Dalcanale Filho.
Maripá, a empresa
Desse encontro histórico resultou que Ruaro e os Dalcanale compraram a Fazenda Britânia, propriedade começada por Jorge Schimmelpfeng, militar que veio a ser o primeiro prefeito de Foz do Iguaçu.
Constituía-se desta forma a companhia Maripá, à qual Barth se integrou e depois viria a comandar. Alberto Dalcanale comprou a totalidade das ações da Cia de Madeiras Del Alto Paraná S.A., uma sociedade com sede na Argentina, mas de propriedade de um grupo inglês.
Esta empresa era proprietária da Fazenda Britânia, no Oeste do Paraná, uma área de 110 mil alqueires. Dalcanale lidera, então, a incorporação dessa área em uma empresa que fundou juntamente com um grupo gaúcho - a Industrial e Colonizadora Rio Paraná S.A. (Maripá).
O melhor plano
Surge, assim, um megaprojeto de colonização, que mereceu, inclusive, os aplausos da FAO, uma organização da ONU para a agricultura e alimentação, como o melhor plano de colonização da América Latina, e que hoje é representado pelos municípios de Toledo, Marechal Rondon, Nova Santa Rosa, Maripá, Pato Bragado, Entre Rios e Quatro Pontes, dentre outros.
Esse episódio dá bem conta do sistema de negociação de Alberto Dalcanale, o que se comprova ainda por um depoimento de outra figura exponencial da colonização paranaense - Alfredo Paschoal Ruaro:
- Conheci o Oeste do Paraná no ano de 1946, através de Alberto Dalcanale, em São Miguel do Oeste e Descanso, onde estávamos colonizando. Este me convidou para comprar a área dos ingleses, que era a gleba britânica, Fazenda Toledo, de 113 mil alqueires de terras.
- Seguimos para São Paulo, junto com o brigadeiro inglês, descemos por Sorocabana e Presidente Epitácio. De barco até Guaíra, depois com um trenzinho até Porto Mendes, onde verificamos a área por base, descemos até Foz do Iguaçu, de barco, onde só existia um único auto de praça, que nos levou até Cascavel, pela estrada velha, Picada Benjamim.
- De Cascavel descemos de carrocinha de animais até Toledo. O marechal Rondon tinha aberto uma picada de linha telegráfica. De Toledo não tinha mais caminho. Verificamos a área britânica e voltamos à Foz do Iguaçu, onde pegamos um avião e voltamos, findo o trabalho por este setor de Toledo.
Um negócio de louco
Um dia, um amigo do pioneiro Antônio Bordin lhe propôs um negócio inédito. Bordin prestaria serviços para um colonizador gaúcho e receberia as terras da atual região de Palotina, que estavam em poder da família Dalcanale.
Bordin foi, e do contato com Alberto Dalcanale saiu o negócio: 500 alqueires de terras para Bordin ocupar em troca de construir um picadão até uma serraria na barra do rio São Camilo com o Piquiri e um caminhão Ford 51.
Esse era o tipo de negócio que Alberto Dalcanale fazia com argúcia e visão de futuro: ele deu 500 alqueires das melhores terras do mundo para receber em troca uma roçada no mato e um caminhão usado.
Hoje, parece loucura. Mas, na época, a terra não valia nada. A estrada aberta com picadão e que passou a ser percorrida por aquele velho caminhão é que fez toda a diferença para o projeto colonizador.
Os últimos anos de Alberto foram passados em Balneário Camboriú e Cabeçudas, no litoral catarinense. Morreu em Curitiba, em 19 de novembro de 1980. Dona Jeanne, a francesinha, faleceu em Florianópolis, em 16 de janeiro de 1994.
Deixaram os filhos Luiz Alberto (advogado e político) e Roger Dalcanale (economista), residentes em Curitiba, e a filha Ivete, casada com Paulo Bornhausen, residente em Florianópolis.
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